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Nutrição Parenteral pelo PICC: Indicações, Acesso Vascular e Cuidados da Equipe

Nutrição Parenteral pelo PICC: Indicações, Acesso Vascular e Cuidados da Equipe

A terapia nutricional é parte fundamental do cuidado ao paciente crítico e ao portador de doenças que comprometem a ingestão ou a absorção de nutrientes. Quando a via oral e a enteral não são viáveis ou suficientes, a Nutrição Parenteral (NP) surge como recurso essencial para garantir o aporte calórico e proteico necessário à manutenção da vida e à recuperação do paciente.

A escolha do acesso vascular adequado para a administração da NP é uma decisão clínica de alta relevância, e o PICC consolidou-se como uma das opções mais seguras e eficazes disponíveis atualmente. Neste artigo, você vai entender o que é a NP, quais são suas indicações, por que o acesso venoso central é indispensável para essa terapia e qual é o papel do enfermeiro na prevenção de complicações.

O Que É a Nutrição Parenteral

A Nutrição Parenteral é definida como uma solução estéril e apirogênica, composta fundamentalmente por carboidratos (geralmente glicose), aminoácidos, lipídios (emulsões lipídicas), vitaminas e minerais essenciais. Administrada diretamente na corrente sanguínea, ela fornece todos os macronutrientes e micronutrientes de que o organismo necessita quando a alimentação por via digestiva não é possível ou não é suficiente para atender às demandas metabólicas do paciente.

Historicamente, a NP foi introduzida na prática clínica na segunda metade do século XX e, inicialmente, era utilizada de forma exclusiva em pacientes hospitalizados em estado grave. Com o avanço das tecnologias de acesso vascular e o desenvolvimento de formulações mais estáveis e seguras, a terapia nutricional parenteral expandiu-se progressivamente e hoje é também uma realidade no contexto do cuidado domiciliar, permitindo que pacientes com doenças crônicas recebam suporte nutricional em casa com qualidade de vida preservada.

Indicações da Nutrição Parenteral

A NP está indicada para pacientes que apresentam desnutrição instalada ou risco significativo de desnutrição e que não podem ser alimentados de forma efetiva e segura pelas vias oral ou enteral. Entre as principais situações clínicas que indicam o uso da NP, destacam-se:

Falência intestinal: condição em que o intestino é incapaz de absorver os nutrientes necessários ao organismo, seja por perda anatômica (como nas síndromes do intestino curto) ou por disfunção grave da mucosa intestinal.

Trauma grave: pacientes politraumatizados com hipercatabolismo e impossibilidade de acesso enteral precoce podem necessitar de suporte parenteral enquanto a via digestiva é restabelecida.

Doença inflamatória intestinal: em fases agudas graves de Crohn ou retocolite ulcerativa, quando o repouso intestinal se faz necessário e a via enteral está contraindicada.

Enterocolite: especialmente em neonatos prematuros, em quem a enterocolite necrosante impede o uso da via digestiva por períodos prolongados.

Pancreatite grave: nos casos em que a estimulação pancreática pela via enteral é indesejável e o jejum prolongado torna o suporte parenteral necessário para prevenir o catabolismo.

Câncer gastrointestinal: pacientes com neoplasias do trato digestivo, submetidos a cirurgias extensas ou em tratamento com quimioterapia e radioterapia, frequentemente necessitam de NP para manter o estado nutricional.

Prematuridade: recém-nascidos prematuros, especialmente os de muito baixo peso, têm imaturidade funcional do trato gastrointestinal e necessitam de suporte parenteral até que a alimentação enteral seja estabelecida com segurança.

A Importância do Acesso Venoso Central para a NP

Para a administração da Nutrição Parenteral, o paciente precisa dispor de um acesso venoso seguro, capaz de suportar a infusão de soluções hiperosmolares, ou seja, soluções com osmolaridade superior à do plasma sanguíneo. A osmolaridade plasmática normal situa-se em torno de 285 a 295 mOsm/L, enquanto as formulações de NP podem atingir valores muito superiores.

As soluções hiperosmolares ou hipertônicas possuem alta densidade e, quando infundidas em veias periféricas de pequeno calibre e baixo fluxo sanguíneo, causam irritação e dano à parede vascular, resultando em flebite química, trombose e, em casos graves, necrose tecidual por extravasamento. Por isso, a administração de NP exige obrigatoriamente um acesso venoso central, onde o alto fluxo sanguíneo dilui rapidamente a solução, prevenindo o contato prolongado da mistura hiperosmolar com o endotélio vascular.

A Evolução Histórica do Acesso Vascular para NP

A trajetória dos dispositivos utilizados para a administração de nutrição intravenosa acompanha a própria evolução da terapia intravenosa ao longo do século XX. Inicialmente, as nutrições intravenosas eram administradas por meio de agulhas de aço, que impunham limitações severas de tempo de permanência e conforto ao paciente.

Com o avanço da ciência dos materiais, foram introduzidos os cateteres confeccionados em teflon, silicone e elastômero, que permitiram o acesso a vasos de grande calibre com maior fluxo sanguíneo e possibilitaram a administração segura de soluções mais concentradas. Esse avanço foi determinante para o desenvolvimento e a consolidação da NP como terapia sistematizada.

Atualmente, o acesso venoso para NP é realizado por meio de cateteres venosos centrais modernos, com destaque para o PICC como uma das alternativas mais equilibradas em termos de segurança, facilidade de inserção e manutenção.

O PICC como Acesso Seguro para a Nutrição Parenteral

O Cateter Central de Inserção Periférica (PICC) consolidou-se como uma escolha segura e eficaz para a administração da Nutrição Parenteral. Confeccionado em silicone ou poliuretano, o PICC é inserido preferencialmente nas veias basílica, braquial ou cefálica do braço, com sua ponta posicionada na junção da veia cava superior com o átrio direito, garantindo assim o acesso a um vaso de grande calibre e alto fluxo sanguíneo.

O PICC apresenta importantes vantagens em relação a outros cateteres centrais para a administração de NP:

Menor índice de complicações: comparado aos cateteres centrais de inserção direta (subclávia, jugular interna ou femoral), o PICC está associado a menores taxas de complicações mecânicas durante a inserção, como pneumotórax e lesão arterial acidental.

Inserção à beira leito: o PICC pode ser inserido pelo enfermeiro habilitado diretamente no leito do paciente, sem necessidade de centro cirúrgico ou anestesia, o que agiliza o início da terapia nutricional e reduz custos hospitalares.

Longa permanência: o PICC pode permanecer por semanas a meses, tornando-o ideal tanto para pacientes hospitalizados em terapia nutricional prolongada quanto para pacientes em NP domiciliar.

Acesso para NP domiciliar: a possibilidade de alta hospitalar com PICC em funcionamento permite que pacientes em NP domiciliar mantenham o tratamento sem necessidade de reinstituição de acesso a cada visita ambulatorial.

Prevenção de Complicações: O Papel da Equipe de Enfermagem

A administração segura da Nutrição Parenteral pelo PICC depende fundamentalmente da qualidade do cuidado prestado pela equipe de saúde. Para evitar complicações na terapia nutricional parenteral, algumas práticas são indispensáveis:

Treinamento contínuo: a equipe de saúde deve receber capacitação permanente sobre indicações de cateter adequado para NP, manipulação segura da solução parenteral, manutenção do cateter e reconhecimento precoce de complicações.

Escolha correta do cateter: a indicação do dispositivo de acesso venoso deve ser individualizada, considerando o tempo previsto de terapia, as características clínicas do paciente e as condições do acesso venoso disponível.

Cuidados de manutenção: troca de curativo conforme protocolo, salinização adequada, desinfecção rigorosa dos conectores e monitorização do sítio de inserção são cuidados fundamentais para garantir a integridade do cateter e a segurança da infusão nutricional.

Barreira máxima de proteção: durante a inserção do cateter, a utilização de técnica asséptica rigorosa com barreira máxima de proteção reduz significativamente o risco de infecção de corrente sanguínea associada ao cateter, uma das complicações mais graves da terapia parenteral.

Para aprofundar seus conhecimentos sobre o PICC e a terapia intravenosa avançada, acesse o site da Nobre Educação e conheça os cursos de habilitação disponíveis para enfermeiros.

Referência: ASPEN – American Society for Parenteral and Enteral Nutrition. Disponível em: JPEN Journal of Parenteral and Enteral Nutrition. Acesso em: 18 jun. 2022.

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