A doença renal crônica representa um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea. Com prevalência crescente em todo o mundo, ela exige tratamentos contínuos, de alta complexidade e com impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes. Nesse contexto, a hemodiálise ocupa papel central como principal modalidade terapêutica, e a equipe de enfermagem é protagonista indispensável na qualidade e na segurança desse cuidado.
O Que É a Doença Renal Crônica
A doença renal crônica (DRC) é definida como uma lesão do parênquima renal e/ou pela diminuição funcional dos rins por um período igual ou superior a três meses. Trata-se de uma condição progressiva e, na maioria dos casos, irreversível, que compromete gradualmente a capacidade dos rins de realizar suas funções essenciais: filtrar o sangue, regular o equilíbrio hidroeletrolítico, controlar a pressão arterial e produzir hormônios como a eritropoietina.
À medida que a perda funcional dos rins se agrava, surgem manifestações clínicas e laboratoriais que tornam evidente o diagnóstico, entre as quais se destacam: anemia, decorrente da redução na produção de eritropoietina; anorexia e outros sintomas gastrointestinais; distúrbios hidroeletrolíticos, como hipercalemia e hiperfosfatemia; distúrbios metabólicos, como acidose metabólica; e distúrbios hormonais associados ao hiperparatireoidismo secundário, entre outros.
A Hemodiálise como Principal Tratamento da DRC
A hemodiálise é a forma mais utilizada de tratamento da insuficiência renal crônica em estágio terminal. Nesse procedimento, o paciente é conectado a uma máquina que simula o processo de filtração glomerular realizado pelos rins sadios. O objetivo principal é extrair do sangue as substâncias tóxicas ao organismo, os resíduos nitrogenados acumulados pelo metabolismo, e remover o excesso de água retido pelo organismo entre uma sessão e outra.
Durante o procedimento, o sangue carregado de toxinas é desviado do paciente para um equipamento chamado dialisador, onde é filtrado por membranas semipermeáveis em contato com uma solução especial, a dialisante. Após a limpeza, o sangue é devolvido ao corpo do paciente. Para que esse processo ocorra de forma adequada, é fundamental o estabelecimento de um acesso vascular ideal, que pode ser uma fístula arteriovenosa, um enxerto ou um cateter venoso central de duplo lúmen.
Modalidades de Hemodiálise
O tratamento por hemodiálise não é monolítico: ele se divide em diferentes modalidades, adaptadas às necessidades clínicas, à rotina e às condições de saúde de cada paciente.
Hemodiálise convencional: realizada geralmente três vezes por semana, com sessões de três a quatro horas, em unidades de diálise ambulatoriais ou hospitalares. É a modalidade mais amplamente utilizada no Brasil e no mundo.
Hemodiálise diária: sessões mais curtas realizadas diariamente (cinco a seis vezes por semana), que permitem melhor controle da uremia e dos volumes hídricos, com menor variação interdiálise.
Hemodiálise noturna: sessões prolongadas realizadas durante o sono do paciente (seis a oito horas), proporcionando maior eficiência de depuração e melhor tolerância hemodinâmica.
Hemodiálise domiciliar: modalidade em expansão no Brasil, realizada no próprio domicílio do paciente após treinamento adequado, com supervisão da equipe de saúde. Oferece maior autonomia e qualidade de vida ao paciente.
Complicações Mais Comuns Durante a Hemodiálise
Apesar dos avanços tecnológicos nos equipamentos e nos protocolos dialíticos, as complicações durante as sessões de hemodiálise ainda são frequentes e exigem atenção constante da equipe de enfermagem. As intercorrências mais comuns incluem:
Hipotensão arterial: a complicação mais frequente, relacionada à redução do volume circulante durante a ultrafiltração. Manifesta-se com queda da pressão arterial, tontura e mal-estar.
Cãibras musculares: geralmente associadas à hipotensão e à remoção excessiva de fluidos, provocam desconforto intenso e podem interromper a sessão.
Náuseas e vômitos: frequentemente associados à hipotensão ou à síndrome do desequilíbrio, exigem monitorização e intervenção rápida para evitar aspiração.
Cefaleia: pode estar relacionada à variação pressórica, ao desequilíbrio de ureia ou à ansiedade do paciente durante o procedimento.
Dor torácica e dor lombar: devem ser investigadas com atenção, pois podem indicar desde cãibra muscular até reações mais graves ao dialisato ou ao circuito extracorpóreo.
Prurido: queixa frequente em pacientes dialíticos, relacionada à uremia, ao hiperparatireoidismo e à precipitação de cristais de cálcio na pele.
Febre e calafrios: podem indicar infecção do acesso vascular ou reação pirogênica ao circuito de diálise, exigindo investigação imediata.
Complicações Menos Comuns, mas Graves
Além das intercorrências habituais, a hemodiálise pode desencadear complicações de maior gravidade, menos frequentes, mas que exigem reconhecimento imediato e intervenção especializada da equipe:
Síndrome do desequilíbrio: ocorre quando a redução rápida dos níveis plasmáticos de ureia cria gradiente osmótico entre o sangue e o líquido cefalorraquidiano, provocando edema cerebral com sintomas como cefaleia intensa, confusão mental e convulsões.
Reações de hipersensibilidade: podem ser desencadeadas pelo material do dialisador ou por substâncias do circuito, manifestando-se com urticária, broncoespasmo ou choque anafilático.
Arritmias cardíacas: favorecidas pelas variações eletrolíticas, especialmente as alterações de potássio e cálcio, durante a sessão dialítica.
Hemorragia intracraniana e convulsões: complicações raras, associadas à hipertensão não controlada, à anticoagulação excessiva ou à síndrome do desequilíbrio grave.
Hemólise: destruição de hemácias por temperatura inadequada do dialisato, contaminantes ou pressão excessiva no circuito. É uma emergência que requer suspensão imediata da sessão.
Embolia gasosa: entrada de ar no circuito extracorpóreo, situação potencialmente fatal que exige monitorização contínua do sistema de alarmes da máquina.
Hipovolemia e Hipotensão: As Complicações Mais Frequentes
A literatura aponta consistentemente a hipovolemia e a hipotensão arterial como as complicações mais frequentes da hemodiálise. Elas ocorrem quando o ritmo de ultrafiltração programado na máquina supera a capacidade de preenchimento vascular do paciente, ou seja, quando o volume de fluido removido é maior do que o organismo consegue redistribuir a partir dos compartimentos intracelular e intersticial para o intravascular.
Fatores como ganho de peso interdialítico excessivo, tempo de sessão insuficiente, uso de anti-hipertensivos antes da diálise e disfunção autonômica contribuem para aumentar o risco dessas complicações. O enfermeiro deve monitorar frequentemente a pressão arterial durante a sessão e estar preparado para intervir prontamente com redução da taxa de ultrafiltração, posicionamento do paciente e reposição de volume quando necessário.
O Papel da Enfermagem na Qualidade do Tratamento Dialítico
A qualidade do tratamento dialítico é diretamente influenciada pelo desempenho da equipe de enfermagem. Cabe ao enfermeiro coordenar e executar as intervenções direcionadas a cada intercorrência, monitorar continuamente os sinais vitais e os parâmetros da máquina, gerenciar o acesso vascular e educar o paciente sobre sua condição e seu tratamento.
A educação permanente da equipe é um fator determinante para a melhoria contínua da qualidade do cuidado em hemodiálise. Profissionais bem capacitados identificam precocemente as complicações, respondem com maior segurança às situações de emergência e estabelecem vínculos terapêuticos mais sólidos com os pacientes.
É amplamente reconhecido que o cuidado de enfermagem aos pacientes em diálise vai além do domínio técnico: ele requer sensibilidade, empatia e envolvimento humano. Pacientes em hemodiálise convivem com uma condição crônica que afeta profundamente sua rotina, sua autonomia e sua saúde mental. A presença acolhedora e competente da equipe de enfermagem é parte essencial do cuidado integral a esse público.
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Referência: Disponível em: BVS Saúde. Acesso em: 01 jun. 2022.


