A infecção de corrente sanguínea associada ao cateter (ICSAC) é uma das complicações mais graves relacionadas ao uso de dispositivos de acesso vascular. Nos cateteres venosos centrais, ela está associada a aumento significativo da morbimortalidade, prolongamento do tempo de internação e elevação dos custos hospitalares. No contexto do PICC, a prevenção da ICSAC depende diretamente da qualidade das práticas adotadas pela equipe de saúde em todas as etapas: da inserção à manutenção e à retirada do cateter.
Neste artigo, apresentamos as principais recomendações de boas práticas para a prevenção de infecção de corrente sanguínea no uso do PICC, fundamentadas na literatura científica e nas diretrizes das principais sociedades de terapia intravenosa.
O PICC e Seu Crescimento na Prática Clínica
Os Cateteres Centrais de Inserção Periférica (PICCs) são dispositivos inseridos em veias periféricas do braço, com a ponta posicionada na veia cava superior, o que lhes confere características e indicações equivalentes às dos cateteres venosos centrais de inserção direta. Nos últimos anos, o uso dos PICCs aumentou significativamente, impulsionado pelas vantagens que esses dispositivos oferecem em relação aos cateteres centrais convencionais.
Entre os principais benefícios do PICC, destaca-se a redução de complicações mecânicas durante a inserção, como pneumotórax e hemotórax, que são riscos inerentes à punção das veias subclávia e jugular interna. Além disso, por oferecerem acesso venoso durável e de longa permanência, os PICCs facilitam as transições entre os diferentes níveis de atenção, permitindo que o paciente seja transferido do hospital para cuidados intermediários ou domiciliares sem necessidade de interrupção da terapia intravenosa.
No entanto, assim como qualquer cateter venoso central, o PICC não está isento do risco de infecção. A manutenção de boas práticas assistenciais é o principal fator determinante para a prevenção da ICSAC.
1. Inserção com Técnica Asséptica e Barreira Máxima de Proteção
Toda inserção de PICC deve ser realizada com precauções assépticas rigorosas e com a aplicação da técnica de barreira máxima de proteção. Isso inclui a utilização de campo estéril amplo cobrindo todo o paciente, além dos equipamentos de proteção individual completos pelo profissional que realiza o procedimento.
A barreira máxima durante a inserção é uma das medidas com maior evidência científica na redução das taxas de ICSAC em cateteres venosos centrais. Qualquer desvio nessa prática representa um risco real de contaminação do cateter no momento mais crítico do procedimento.
2. Higienização das Mãos
A higienização das mãos antes e após qualquer manipulação do cateter permanece como a medida de controle de infecção de menor custo e maior impacto comprovado. Deve ser realizada com água e sabonete líquido ou com solução alcoólica a 70%, seguindo a técnica correta dos cinco momentos preconizados pela OMS.
Essa prática se aplica a todos os profissionais de saúde que manipulam o PICC, independentemente do tipo de procedimento realizado: troca de curativo, administração de medicamentos, coleta de sangue ou simples inspeção do dispositivo.
3. Uso Correto dos Equipamentos de Proteção Individual
Durante a manipulação do PICC, os profissionais devem utilizar os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) adequados ao procedimento, conforme o protocolo institucional vigente. Os EPIs indicados incluem máscara cirúrgica, gorro, luvas estéreis (para inserção e troca de curativo), óculos de proteção e avental.
O uso correto dos EPIs protege tanto o profissional quanto o paciente, funcionando como barreira física contra a transmissão de microrganismos durante os procedimentos de acesso ao cateter.
4. Proteção do Curativo Durante o Banho
Antes de encaminhar o paciente para o banho ou de realizar o banho no leito, o curativo do PICC deve ser coberto com material impermeável, como filme plástico ou protetor específico para esse fim. A umidificação do curativo durante o banho compromete sua aderência e sua capacidade de barreira contra microrganismos, aumentando significativamente o risco de colonização do sítio de inserção.
Essa orientação deve fazer parte das instruções fornecidas ao paciente e ao familiar cuidador, especialmente nos casos de pacientes em terapia domiciliar com PICC.
5. Observação e Troca do Curativo
O sítio de inserção do PICC deve ser inspecionado diariamente, mesmo sem a remoção do curativo, para a identificação precoce de sinais de infecção local, como eritema, edema, calor, dor ou secreção. O curativo deve ser trocado imediatamente sempre que estiver úmido, sujo ou com aderência comprometida, independentemente do prazo de troca estabelecido em protocolo.
A troca periódica do curativo, mesmo na ausência de sujidade visível, deve seguir a frequência definida pelo protocolo institucional, respeitando as recomendações das diretrizes vigentes para cada tipo de cobertura utilizada.
6. Recomendações do Fabricante do Dispositivo
As recomendações específicas do fabricante do PICC devem ser sempre consideradas e seguidas pela equipe de enfermagem. Cada dispositivo pode apresentar particularidades técnicas em relação ao tipo de válvula, ao material de fabricação, ao volume de salinização recomendado, à pressão máxima suportada e ao método de limpeza dos conectores.
O desconhecimento dessas especificidades pode resultar em manuseio inadequado, dano ao dispositivo e aumento do risco de complicações, incluindo a infecção.
7. Desinfecção dos Conectores Valvulados
A desinfecção rigorosa dos conectores valvulados antes de cada acesso ao cateter é uma medida essencial para a prevenção da ICSAC. O conector deve ser friccionado por no mínimo 15 segundos com álcool a 70% ou com produto específico recomendado pelo fabricante, aguardando a secagem completa antes de acessar o sistema.
Os conectores são uma das principais portas de entrada de microrganismos para o interior do cateter. O uso de conectores com tecnologia antimicrobiana adicional pode ser considerado em contextos de alto risco, conforme protocolo institucional.
8. Educação Permanente da Equipe
O treinamento contínuo da equipe de saúde é um dos pilares mais importantes da prevenção de infecção associada ao cateter. A capacitação deve abordar os critérios de indicação do PICC, a técnica correta de inserção, os cuidados de manutenção, o reconhecimento precoce de complicações e as condutas frente às intercorrências mais comuns.
A educação permanente deve ser um processo contínuo, com reciclagens periódicas, auditorias de conformidade e feedbacks individualizados. Estudos demonstram que programas estruturados de educação em equipes que manuseiam cateteres centrais estão associados a reduções expressivas nas taxas de ICSAC.
9. Protocolos Institucionais Atualizados
A elaboração e a manutenção de protocolos institucionais atualizados para o uso do PICC são fundamentais para garantir a padronização das práticas e a consistência do cuidado em todos os turnos e por todos os membros da equipe. Os protocolos devem ser baseados nas melhores evidências científicas disponíveis, revisados periodicamente e amplamente divulgados a todos os profissionais envolvidos.
O enfermeiro tem papel central na construção, atualização e monitoramento desses documentos, sendo o guardião da segurança assistencial no contexto da terapia intravenosa.
A Cultura de Segurança como Alicerce das Boas Práticas
A prevenção da infecção de corrente sanguínea associada ao PICC não se resume a um conjunto de procedimentos técnicos: ela reflete a cultura de segurança da equipe e da instituição. Quando cada profissional compreende o impacto de suas ações na segurança do paciente e age com responsabilidade e comprometimento, os indicadores de infecção melhoram de forma sustentável.
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Referência: Chopra V et al. The Michigan Appropriateness Guide for Intravenous Catheters (MAGIC). PubMed. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24440542.


